sexta-feira, 6 de abril de 2018

A Sementinha


Existia uma sementinha que tinha medo de tudo. Dos trovões, do barulho do riacho, do vento, dos passarinhos, e de tudo o que havia à sua volta. Apesar de ter medo de tudo, havia uma coisa em especial que lhe apavorava: Deixar de ser sementinha.

Não é que ela - Ah não, preciso deixar de mistério e parar com essa mania de falar na terceira pessoa. Vamos lá... - Não é que eu tivesse medo de deixar de ser sementinha, na verdade a ideia até me agradava. Mas tinha algo...

Sabe o que é, é que toda sementinha tem uma jornada. Primeiro é sufocada pela terra, depois tenta sobreviver aos afogamentos e queimaduras diárias, até se tornar uma árvore grande e forte. Percebe como é apavorante?!

Mas sabe uma coisa que a sementinha não tem? Ela não tem vontade. Na verdade vontade até tem, mas ela não tem escolha. Sua caminha na terra foi feita sem que lhe perguntassem se estava confortável. As gotinhas de água pingavam em sua cabeça sem se preocupar se a situação era inconveniente. E o sol... Ah, o sol. Queimava daqui, incomodava dali. 

Mas um dia, de tanto tomar sol e chuva, começou a se sentir muito estranha. E não percebeu o que tinha acontecido, até que ouviu alguém gritar: "Manhê! A sementinha brotou!". E quando se deu conta, já não estava mais escondida na terra. Agora suas folhinhas podiam respirar. E olhando pra trás, entendeu que os raios de sol e as gotas de chuva eram pro seu bem.

A sementinha estava muito feliz porque tinha crescido! Mas aquilo não era tudo. Ela ainda tinha uma longa jornada pela frente até se tornar uma árvore grande e forte. Ainda teria que enfrentar muitos dias quentes e noites molhadas. Mas alguma coisa dentro dela mudou. Agora ela não tinha mais medo dos trovões, do barulho do riacho, do vento, dos passarinhos, nem do sol, nem da chuva. Apesar de não gostar da ideia, agora tinha esperança:

Eu não vou morrer
e tudo isso é para o meu bem


Vai chover quanto for preciso pra crescer
Me podar o que for preciso pra mudar
(Deise Jacinto)

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Aquele Dia



Os dias vão passando, e chega um dia que o dia chega, aquele dia que a gente adia e quer fugir.

As palavras não saem, e nem as lágrimas encontram forças para rolar. A fraqueza domina os ossos, e a cama se torna refúgio. Lá, onde os gritos são abafados no travesseiro e o turbilhão de pensamentos não pode nos derrubar - pois já estamos deitados.

As noites são longas e o sono tarda a vir. Agitação. No corpo, na mente, no coração. Não tem jeito, é preciso enfrentar os instantes de insônia que antecedem a sonolência. Turbulência. Os sonhos refletem os medos antigos e as preocupações. A agenda, o problema, o dilema, o dia que passou.

A gente adia mas o dia vem. Não bate na porta mas esbofeteia o coração. Deixa ele lá esgotado, abatido, estirado ao chão. E a gente se pergunta se esse dia vai passar, se ele vai embora ao raiar de um novo sol.

Eu me pergunto, e não tenho a resposta, mas tenho a esperança de que vai passar.

E de que é pro meu bem.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Perene


Ele corria a passos largos, apressados. As sombras que se misturavam com as densas folhagens das árvores não lhe atemorizavam, tampouco os uivos que ecoavam pela escuridão. Seus olhos buscavam aquilo que havia perdido.

Aquilo não. Depois de algum tempo correndo, ainda com o mesmo vigor fitou seus olhos em uma figura encolhida no chão. Lá estava ela, com a cabeça enterrada entre os joelhos, abraçando suas pernas. Tremia enquanto as lágrimas não se podiam conter.

Uma mão sobre seu ombro trouxe um conforto que ela não esperava receber.

- Eu estou aqui - seu coração acalentou-se ao ouvir o doce estrondo.

Silêncio. Não sentia-se digna de responder, tampouco se render a tão intensa afirmação. Em sua cabeça, lhe atormentavam milhares de pensamentos e memórias do que havia ocorrido na noite anterior. Deixou escapar alguns gemidos de dor.

- Eu estou aqui - insistiu - Não precisa ter medo.

Sem pensar uma vez sequer, ainda com a face escondida, gritou:

- Vá embora!

Nesse momento, juntou-se a ela no chão umedecido pelo orvalho.

- Eu não vou te deixar sozinha.

As palavras que lhe traziam calmaria lutavam contra as sensações angustiantes de que toda aquela situação não passava de um blefe. Uma guerra rasgava-lhe a alma. Desejava ardentemente lançar-se àqueles braços que ela sabia o quão seguros eram, mas o peso sobre si, as correntes imaginárias, eram muito mais fortes. Ela pensava que eram.

- Eu estou aqui. Confie em mim.

O conflito interno roubava-lhe o fôlego. Determinada a, de uma vez por todas, por um fim em tamanho desgaste, levantou o rosto em um grito desesperado.

- Olhe no fundo dos meus olhos e me diga se tem coragem de ficar aqui!

Ele olhou em seus olhos, bem no fundo, além da pupila dilatada. Encontrou sua alma. Lá dentro, os discursos de ódio, as declarações altivas, o descaso. Ele a tudo isso viu. Ela sabia que isso aconteceria, seu olhar já havia lhe penetrado outras vezes. Agora esperava ver suas costas e ouvir o som de seus passos cada vez mais distantes.

Os segundos foram passando e isso não aconteceu.

"Olhe no fundo dos meus olhos e me diga se tem coragem de ficar aqui!". Ele degustava os sabores dessas palavras.

- Eu tenho coragem - e sorriu.

Ela não acreditou no que ouviu. Sabia de seu amor, mas recusava-se aceitar esse amor novamente. Indigna, era assim que se via. Um poço de traumas e indecisões. Poço vazio que deveria continuar vazio. Diante dela estava a oferta irrecusável: A água que lhe faltava para lavar e preencher.

Balançou a cabeça. Já nem sabia quais pensamentos eram seus. Sentia-se atormentada, massacrada pelas densas trevas do extenso bosque. Queria acabar com aquilo, mas ele permanecia ali, no mesmo lugar.

De relance, lançou-lhe um olhar clamando por piedade. De seus lábios saia a súplica:

- Vá embora, por favor...

Escondeu novamente seu rosto entre os joelhos. Silêncio. Suspirou fundo ao perceber que ele havia ido embora. Perceber...

Quando menos percebeu lá estava: Afogada entre a fortaleza que a conquistara com um olhar. Os braços fortes lhe enlaçaram com delicadeza e força. Rendeu-se enfim à voz que dizia:

- Eu não vou te deixar sozinha.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Venha o Teu Reino


Coloco-me saudosa diante de minha alma. Recordo-me dos grandes feitos conquistados a próprio punho, e daqueles em que alegremente atribui todo mérito a ti. Lembro-me das construções que compunham a cidade. As colunas de certezas, as paredes de especulações, o teto inteiro revestido de sentimento de autossuficiência. Subindo na torre mais alta do palácio que abrigava meus deleites, podia contemplar um horizonte de esperança. Este horizonte foi tudo o que sobrou.

Então veio teu Reino, conquistando todo território do meu ser. A espada de corte preciso, a chama engolindo tudo o que construí. Sonhos tornados em trapos, voando entre as gotas de sangue e fagulhas. Por entre a fumaça vi-te aproximando-se e, apesar de saber que eras tu a razão de minha destruição, não temi. Queria correr ao teu encontro, mas fui paralisada por teu sorriso tentando me consolar realçado por teu olhar compassivo diante de meu sofrimento.

Cada passo teu soava como um estrondo. Conforme se aproximava, senti tua humanidade a me envolver. Então mais perto, já envolto em teus braços, meu coração disparou.

Juntos caminhamos ao monte que sustentava meu antigo refúgio. Sentamos. Passei a observar minha cidade assolada. A vista ali era mais ampla do que em qualquer outro lugar. As chamas reluziam mais, os escombros pareciam maiores, e eu era tão pequena diante de tamanha destruição.

- O que você vê? - perguntou.

Pensei por alguns instantes, tentando expressar em palavras.

- Tragédia - respondi pesarosa - E você, o que vê?

- Levante seus olhos e verás também.

Tive medo de elevar o olhar e encontrar a destruição que ainda não conhecia, mas fiz.

- O que você vê? - perguntou mais uma vez.

Diante de mim havia apenas a mesma paisagem antiga, mas desta vez coberta por uma densa camada de neblina. O horizonte de esperança escondido detrás da confusão.

- Nada. Não tem nada pra ver.

Ao ouvir minhas palavras, sorriu.

- Se não vê, apenas creia.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sonho Acessível


Desde que me dou por gente, guardo um sonho a sete chaves, e somente Deus pra ter acesso ao cofre do meu coração. Nas orações ditas em silêncio, descrevia sem tanta fé meu desejo, na mais pura certeza de ter tua atenção, mas sem saber se teu silêncio queria dizer sim ou não. Hoje percebo, era apenas silêncio.

Pautada na intensidade do meu desespero, orava esperando um sinal. A incerteza consumia minha alma. Precisava de uma resposta, nem que fosse: "Desista!". Pra minha surpresa, não foi o que escutei. Na verdade, naquele momento, teu silêncio não se apartava de mim.

Li no teu livro as palavras que entalhei em meu íntimo. "Tenha prazer em mim", você dizia, "e concederei o desejo do teu coração". Tal declaração pôs-me em silêncio, e minha oração mudou: "Senhor, faz-me desejar teus desejos, conhecer tua verdade - a única Verdade! -, faz-me contemplar a tua face. vem ser tudo em mim. E sobre meu sonho, se quiseres que eu desista, desistirei, se quiseres que eu invista, investirei. Faça tua vontade, revela-a a mim, e diante dela me calarei". Nesse ponto, permanecias calado, ou será que eu não escutei?

Passei a dedicar-te a minha vida e, num momento que tu eras o centro, ouvi tua voz em um sussurro: "Está tão perto! Só confie em mim". O sonho, chamado agora promessa, tornou-se o lugar seguro para sonhar. As orações tão vagas, acompanhadas de insegurança, tornaram-se detalhadas, os olhos confusos se encheram de esperança, e passei a apresentar-te cada detalhe: O vestido, os votos, o véu. O meu único medo era estragar a tão grande surpresa que tens preparado para mim. O que me consola é que, por mais que eu me esforce, jamais conseguirei atingir teus pensamentos.

Pra minha surpresa, meu olhar atento não desviou-se ao presente embrulhado - permaneceu em ti. E quanto mais eu ouvia as tuas palavras, sentia o teu toque e mergulhava na imensidão do teu olhar, mais profundo queria ir, e ainda quero. O sonho outrora inalcançável brilha de forma a extasiar meu coração, mas tua presença tão acessível é capaz de fazê-lo parar. Meu mundo para diante do teu, e minha única tristeza é não ter mais tempo para ouvir teus conselhos, reclinar-me em teu colo e abaixar toda a minha guarda diante de ti.

Bem sei que cumprirás esta promessa, pois não voltas atrás em tua palavra, mas confesso que não vale a pena se você não estiver lá.