terça-feira, 7 de novembro de 2017

Perene


Ele corria a passos largos, apressados. As sombras que se misturavam com as densas folhagens das árvores não lhe atemorizavam, tampouco os uivos que ecoavam pela escuridão. Seus olhos buscavam aquilo que havia perdido.

Aquilo não. Depois de algum tempo correndo, ainda com o mesmo vigor fitou seus olhos em uma figura encolhida no chão. Lá estava ela, com a cabeça enterrada entre os joelhos, abraçando suas pernas. Tremia enquanto as lágrimas não se podiam conter.

Uma mão sobre seu ombro trouxe um conforto que ela não esperava receber.

- Eu estou aqui - seu coração acalentou-se ao ouvir o doce estrondo.

Silêncio. Não sentia-se digna de responder, tampouco se render a tão intensa afirmação. Em sua cabeça, lhe atormentavam milhares de pensamentos e memórias do que havia ocorrido na noite anterior. Deixou escapar alguns gemidos de dor.

- Eu estou aqui - insistiu - Não precisa ter medo.

Sem pensar uma vez sequer, ainda com a face escondida, gritou:

- Vá embora!

Nesse momento, juntou-se a ela no chão umedecido pelo orvalho.

- Eu não vou te deixar sozinha.

As palavras que lhe traziam calmaria lutavam contra as sensações angustiantes de que toda aquela situação não passava de um blefe. Uma guerra rasgava-lhe a alma. Desejava ardentemente lançar-se àqueles braços que ela sabia o quão seguros eram, mas o peso sobre si, as correntes imaginárias, eram muito mais fortes. Ela pensava que eram.

- Eu estou aqui. Confie em mim.

O conflito interno roubava-lhe o fôlego. Determinada a, de uma vez por todas, por um fim em tamanho desgaste, levantou o rosto em um grito desesperado.

- Olhe no fundo dos meus olhos e me diga se tem coragem de ficar aqui!

Ele olhou em seus olhos, bem no fundo, além da pupila dilatada. Encontrou sua alma. Lá dentro, os discursos de ódio, as declarações altivas, o descaso. Ele a tudo isso viu. Ela sabia que isso aconteceria, seu olhar já havia lhe penetrado outras vezes. Agora esperava ver suas costas e ouvir o som de seus passos cada vez mais distantes.

Os segundos foram passando e isso não aconteceu.

"Olhe no fundo dos meus olhos e me diga se tem coragem de ficar aqui!". Ele degustava os sabores dessas palavras.

- Eu tenho coragem - e sorriu.

Ela não acreditou no que ouviu. Sabia de seu amor, mas recusava-se aceitar esse amor novamente. Indigna, era assim que se via. Um poço de traumas e indecisões. Poço vazio que deveria continuar vazio. Diante dela estava a oferta irrecusável: A água que lhe faltava para lavar e preencher.

Balançou a cabeça. Já nem sabia quais pensamentos eram seus. Sentia-se atormentada, massacrada pelas densas trevas do extenso bosque. Queria acabar com aquilo, mas ele permanecia ali, no mesmo lugar.

De relance, lançou-lhe um olhar clamando por piedade. De seus lábios saia a súplica:

- Vá embora, por favor...

Escondeu novamente seu rosto entre os joelhos. Silêncio. Suspirou fundo ao perceber que ele havia ido embora. Perceber...

Quando menos percebeu lá estava: Afogada entre a fortaleza que a conquistara com um olhar. Os braços fortes lhe enlaçaram com delicadeza e força. Rendeu-se enfim à voz que dizia:

- Eu não vou te deixar sozinha.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Venha o Teu Reino


Coloco-me saudosa diante de minha alma. Recordo-me dos grandes feitos conquistados a próprio punho, e daqueles em que alegremente atribui todo mérito a ti. Lembro-me das construções que compunham a cidade. As colunas de certezas, as paredes de especulações, o teto inteiro revestido de sentimento de autossuficiência. Subindo na torre mais alta do palácio que abrigava meus deleites, podia contemplar um horizonte de esperança. Este horizonte foi tudo o que sobrou.

Então veio teu Reino, conquistando todo território do meu ser. A espada de corte preciso, a chama engolindo tudo o que construí. Sonhos tornados em trapos, voando entre as gotas de sangue e fagulhas. Por entre a fumaça vi-te aproximando-se e, apesar de saber que eras tu a razão de minha destruição, não temi. Queria correr ao teu encontro, mas fui paralisada por teu sorriso tentando me consolar realçado por teu olhar compassivo diante de meu sofrimento.

Cada passo teu soava como um estrondo. Conforme se aproximava, senti tua humanidade a me envolver. Então mais perto, já envolto em teus braços, meu coração disparou.

Juntos caminhamos ao monte que sustentava meu antigo refúgio. Sentamos. Passei a observar minha cidade assolada. A vista ali era mais ampla do que em qualquer outro lugar. As chamas reluziam mais, os escombros pareciam maiores, e eu era tão pequena diante de tamanha destruição.

- O que você vê? - perguntou.

Pensei por alguns instantes, tentando expressar em palavras.

- Tragédia - respondi pesarosa - E você, o que vê?

- Levante seus olhos e verás também.

Tive medo de elevar o olhar e encontrar a destruição que ainda não conhecia, mas fiz.

- O que você vê? - perguntou mais uma vez.

Diante de mim havia apenas a mesma paisagem antiga, mas desta vez coberta por uma densa camada de neblina. O horizonte de esperança escondido detrás da confusão.

- Nada. Não tem nada pra ver.

Ao ouvir minhas palavras, sorriu.

- Se não vê, apenas creia.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sonho Acessível


Desde que me dou por gente, guardo um sonho a sete chaves, e somente Deus pra ter acesso ao cofre do meu coração. Nas orações ditas em silêncio, descrevia sem tanta fé meu desejo, na mais pura certeza de ter tua atenção, mas sem saber se teu silêncio queria dizer sim ou não. Hoje percebo, era apenas silêncio.

Pautada na intensidade do meu desespero, orava esperando um sinal. A incerteza consumia minha alma. Precisava de uma resposta, nem que fosse: "Desista!". Pra minha surpresa, não foi o que escutei. Na verdade, naquele momento, teu silêncio não se apartava de mim.

Li no teu livro as palavras que entalhei em meu íntimo. "Tenha prazer em mim", você dizia, "e concederei o desejo do teu coração". Tal declaração pôs-me em silêncio, e minha oração mudou: "Senhor, faz-me desejar teus desejos, conhecer tua verdade - a única Verdade! -, faz-me contemplar a tua face. vem ser tudo em mim. E sobre meu sonho, se quiseres que eu desista, desistirei, se quiseres que eu invista, investirei. Faça tua vontade, revela-a a mim, e diante dela me calarei". Nesse ponto, permanecias calado, ou será que eu não escutei?

Passei a dedicar-te a minha vida e, num momento que tu eras o centro, ouvi tua voz em um sussurro: "Está tão perto! Só confie em mim". O sonho, chamado agora promessa, tornou-se o lugar seguro para sonhar. As orações tão vagas, acompanhadas de insegurança, tornaram-se detalhadas, os olhos confusos se encheram de esperança, e passei a apresentar-te cada detalhe: O vestido, os votos, o véu. O meu único medo era estragar a tão grande surpresa que tens preparado para mim. O que me consola é que, por mais que eu me esforce, jamais conseguirei atingir teus pensamentos.

Pra minha surpresa, meu olhar atento não desviou-se ao presente embrulhado - permaneceu em ti. E quanto mais eu ouvia as tuas palavras, sentia o teu toque e mergulhava na imensidão do teu olhar, mais profundo queria ir, e ainda quero. O sonho outrora inalcançável brilha de forma a extasiar meu coração, mas tua presença tão acessível é capaz de fazê-lo parar. Meu mundo para diante do teu, e minha única tristeza é não ter mais tempo para ouvir teus conselhos, reclinar-me em teu colo e abaixar toda a minha guarda diante de ti.

Bem sei que cumprirás esta promessa, pois não voltas atrás em tua palavra, mas confesso que não vale a pena se você não estiver lá.

domingo, 16 de julho de 2017

Tributo ao Eu Sou



Entre o movimento
Deslizando suavemente através do tormento
Move lento,
Sempre atento
Às lamentações e ao clamor de sofrimento.

Ao grito, suspiro
Não faz pouco caso
O descaso não faz parte da essência
Inocência.
No rosto corado diante do amor registrado
Também está.

Tão presente quanto oxigênio
Tão ausente quanto olhos a piscar
Se não é visível não deixa de estar
Se está então se move
Ah, como move!
Move-se como o ar.

E eu aqui de olhar atento
Quando percebo tua presença
Perco o alento,
Perco o medo
E a razão.

Sem orgulho no peito
Entre teus braços me deito
Me ajeito
Choro a dor e o desespero.

Meu mundo cai.
Para mim, só resta o teu.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Relacionamentos descartáveis e Amor eterno


Nesse mundo onde as coisas são programadas para se autodestruir com o tempo, é meio difícil acreditar em algo que dure longos períodos, que dirá algo que seja eterno! Primeiro foram os guardanapos e os copos descartáveis, depois as roupas que rasgam e desbotam na terceira lavagem, os celulares que travam após um ano de uso e por fim os relacionamentos que cansam ao primeiro conflito.

O amor hoje é algo desconhecido. Hoje chamamos o queimar do coração de amor. São emojis no whatsapp e beijos calorosos às escondidas. Sério mesmo? Hoje chamamos o requerer de amor, e não mais o entregar. Eu não quero saber de me submeter, você também não, e pode apostar que o resto do mundo também se recusaria.

Amor eterno... Que utopia! Como amar alguém depois de conhecer o pior defeito? Como retornar depois de uma briga daquelas? Como tornar eterno aquilo que se desgasta com o tempo?

Sabe, eu não sei se o que eu vou dizer aqui vai te agradar, mas eu preciso dizer. Esse seu olhar de descarte não é culpa das pessoas grudentas ou alheias demais que você já se relacionou. Isso é um reflexo do que há em seu coração. Eu sei, eu sei, relacionamentos descartáveis não parecem tão ruins assim, afinal, se não deu certo com um, com certeza existem milhares à sua espera. Mas será que você já parou para pensar sobre isso?

É gastar horas de sua vida rasgando fotos, cartas e papéis de bombom. É sentir a dor da separação e não demonstrar, porque você é "forte" demais pra isso. É não se dar o tempo de curar o coração antes de mergulhar novamente no mar de pretendentes. É dar a várias pessoas o seu corpo mas nunca sentir-se seguro o suficiente para oferecer o coração. É não ter alguém para fazer valer o até que a morte nos separe. É não ver o rosto amado envelhecendo com o tempo e não ter a oportunidade de perceber que a cada dia o semblante está mais lindo.

Não importa o quão românticos sejam, relacionamentos descartáveis são perigosos, e deixam profundas marcar no coração. Marcas essas que costumamos não ter tempo nem boa vontade para tratar. Ferida sobre ferida, até que nossos corações pareçam escombros pós-guerra. Não parece um tanto injusto conosco mesmos nos colocarmos em uma situação dessas?

Eu sei que parece impossível guardar o coração e o corpo para uma pessoa até que a morte os separe, mas pode ter certeza que existem loucos por aí que fazer essa loucura, só para quando encontrarem a pessoa certa estejam em plenas condições de recebê-la. Além disso, existe Um que no auge de sua missão mostrou a declaração ainda mais profunda: Que nem a morte nos separe!

Cristo morreu naquela cruz para te salvar da condenação eterna e de si mesmo. Ele veio para que tenhamos vida, e para que a tenhamos em abundância. Ele veio para que você não precisasse afogar suas mágoas em bebidas, drogas, festas, orgias ou em outras pessoas. Ele te convida para um casamento eterno onde Ele é o Noivo, e toda nós somos a Noiva. E Ele é capaz, sim, de preparar a pessoa que caminhará contigo até a morte, porém, deixe que Ele - e apenas Ele - te complete.