terça-feira, 11 de março de 2014

A Pena



Dias vêm e vão
E o pequeno pássaro sempre a voar
Numa hora está aqui
Na outra, onde está?

Noites vão e vêm
E a criança a pensar
Queria amor para sua cidade
Queria fazer do lugar rude, um lar

E o pássaro passava por lá
Num voo descuidado bateu em uma árvore
E deixou sua pena cair

A criança passeava ali
Viu a pena voando e a foi pegar
Numa ação involuntária começou a sorrir

Talvez fosse disso que a cidade precisasse:
Um presente que um amigo inusitado veio lhe trazer!

Feliz, a criança mostrou a toda a cidade
Um a um
Todos puderam ver a pena dourada que era carregada em suas mãos frágeis
E decidiram usá-la

Em todos os cantos da cidade só se ouvia falar da pena
Pena aqui, pena acolá
E foi deixado um tempo para cada um usar
E todos queriam ter a sua

Pena dos famintos
Pena dos moradores de rua
Pena dos órfãos
Pena das viúvas
Pena dos pobres
Pena dos negros
Pena dos doentes
Pena dos cegos

Por todo canto todos chamavam o pássaro
A pena virara a atração da cidade
Queriam cada um ter a sua
E era essa a conversa que predominava nas ruas

Afinal de contas, a cidadezinha se tornara um lugar melhor!
Ninguém mais ignorava quem pedia esmola
Nem rejeitavam alguém por sua cor
Todos tinham pena que julgavam ser amor

Num outro dia o pássaro passou pela mesma cidade
Com seus olhos encontrou sua pena há tempos procurada
Na mão da criança, correndo por todo lugar
E seu próximo passo foi resgatá-la

Chegando perto do menino, subiu em sua mão
O mesmo percebeu sua presença
Começou a acariciar o animal
E o que aconteceu não lhe pareceu real

"Quero minha pena de volta"
Disse o bicho a ponto de bicá-lo
O menino então se lembrou daquele dia
E decidiu atender o pedido do pássaro

Reuniu todos os cidadãos em uma praça
Tarefa fácil para o herói do lugar
Pediu ao prefeito um microfone
E em alto e bom som começou a falar:

"Esse é meu amigo pássaro
Que nos presenteou com sua pena
Mas agora ele a quer de volta"
Um silêncio seguiu suas palavras

"Não podemos dar nossa pena!"
Alguém gritou no meio da multidão
Na verdade todos acreditavam a cidade estava melhorada
Desde que a "pena milagrosa" fora encontrada

Num pio desafinado o pássaro começou a falar

"Por que guardam essa pena?
Não veem que não traz melhoria alguma?
Vocês continuam os mesmos de sempre
Mas tendo a pena como desculpa"

Todos se entreolharam, envergonhados
Pensaram que o amor cairia do céu, como uma pena
Esqueceram que essas coisas é necessário cultivar
E devolveram a pena ao pássaro
Não por pena, mas gratidão

"Se querem realmente ver diferença
Esqueçam as diferenças que os fazem duvidar
Amar quem está do lado não é tarefa difícil
Apenas é preciso paciência para cultivar"

Ninguém tinha pena do pássaro
Nem o amavam, certamente
Mas tinham que agradecê-lo pelo que fez naquele dia
Dizendo a verdade e mudando suas mentes.

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