quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Minha dor



Já é tarde. Um pensamento invade minha mente. É uma lembrança antiga. Tento pensar em outra coisa. Impossível.

Deito-me, durmo, e uma lembrança distorcida consola-me. Ela me faz acreditar que está tudo bem.

Acordo. No sonho parecia ser bem mais simples de encarar, quando na verdade esquecer é o mais prático. Mas não consigo esquecer.

Por inúmeras vezes tranquei essa memória em um baú profundo, e por inúmeras vezes achei um jeito de abri-lo. Pensar nisso é o bastante para me abalar.

Numa dessas troquei umas ideias com um amigo com a esfera de cristal em minhas mãos. Além de mim, apenas ele poderia tocá-la. Só a ele dou o direito de sentir a minha dor.

- Posso? - ele perguntou apontando para o objeto em minhas mãos.

Consenti.

Ele tomou-o delicadamente, elevou os braços acima da cabeça, e em seguida olhou para mim.

Ele estava prestes a despedaçar uma coisa que era parte de mim. Um pedaço podre, mas que ainda pertencia a mim. Destruí-lo doeria, certamente. Mas é o melhor a se fazer. Se eu recusar, será apenas uma questão de tempo até que essa memória me consuma.

Uma lágrima nasceu no canto do meu olho. Ele percebeu e me abraçou bem forte. Depois me pediu novamente para quebrá-lo. Recusei. A mim bastava conversar com ele sobre a situação.

E passaram-se dias...

As mesmas palavras saiam de minha boca. As mesmas lágrimas caiam em seu colo. A mesma proposta ele fazia. Todos os dias.

Resolvi mudar. Depois de algumas semanas eu aceitei.

Ele tomou o cristal e quebrou-o sem hesitação. Senti cacos de vidro me cortando por dentro. Lá no fundo eu não queria entregar meu tesouro a ele. Mas agora... Não dá mais pra voltar atrás.

Ele reconheceu meu grito de socorro.

- Apenas esqueça. - ele me disse.

Se me pareceu cruel na hora? É claro! Ele tinha acabado de me pedir para esquecer uma das pessoas mais importantes que eu já conversara em toda a minha vida.

Teimosa, eu. Demorei tanto pra entender...

Quando eu finalmente pedi ajuda para compreender esse conselho ele se calou. E o seu silêncio me guiou para bem perto dele. E ele me mostrou sua mão. Tinha uma marca nela.

Então perguntei o que ele queria dizer. E ele me respondeu:

- Eu esqueci a minha dor. Você também deve esquecer a sua.




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