quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Mudança radical



Nem sei se existem palavras para expressar o quão doloroso, e ao mesmo tempo aliviador, é botar as entranhas para fora e registrar a dor no papel. Parece que vamos dar de cara com nossa angústia na esquina, mas expulsar num grito de dentro de nós nos impede de ver nossas lágrimas no espelho.

Já tantas vezes eu expus para o mundo minhas frustrações. Tantas vezes quis enfiar goela abaixo minha indignação em tanta gente. Às vezes eu gritava, mesmo sem mexer os lábios. A cada estrondo eu enfiava uma lança no meu peito transpassando o meu coração, sem querer. Eu achava que a exposição dos meus problemas me levaria ao desejado estado de paz.

Já transformei experiências que me serviriam a vida toda em discursos de ódio. Já me escondi atrás do sagrado para justificar minhas besteiras, até que as máscaras que eu usava finalmente caíram.

Tive a sorte de ninguém além de mim ver, mas o que vi foi bem pior do que eu esperava. Como um sepulcro caiado, ao retirar a parte bonita que não era minha, vi um rosto podre. Marcas de ódio em meio ao falso sentimento de autossuficiência. O que era para ser templo do Espírito Santo havia se tornado sinagoga de Satanás. Difícil de aceitar até para mim. A hipocrisia ocupava o lugar da sinceridade. A religiosidade tomou o lugar de Deus. Uma vida podre escondida atrás de palavras bonitas.

 Se antes disso eu lesse um texto como esse em outro lugar, eu discordaria, certamente. Para mim era impossível uma pessoa que vive dentro da igreja se corromper. E para meu conceito mudar tive que sentir na pele.

A cada pedaço de carne que eu arrancava eu sentia uma dor mais profunda do que a dor de um osso quebrado ou de um coração partido. Era a dor da abnegação, de reconhecer que bem no fundo eu estava errada.

Eu sempre soube que eu não estava de todo certa, mas reconhecer não me parecia uma opção. Afinal, me bastava vestir uma saia e cantar nos grupos para que ninguém pegasse no meu pé. Pouco importava o que eu fazia enquanto meu pastor não estivesse olhando. Infelizmente minha memória me deixou na mão quando eu precisava lembrar que Deus não tira seus olhos de mim.

Por um momento eu me esqueci para quem era meu show. Esqueci para quem era meu canto e de quem vinha minha inspiração. Fui acometida com uma grave amnesia que me fez esquecer quem eu era e quem Deus me chamou para ser.

Somente quando eu arranquei meu último pedaço de carne e me deparei com um esqueleto quebradiço foi que minha mente voltou a funcionar. Instantaneamente percebi em que estava meu sustento.

Pedi ajuda.

Esperava eu que Deus me abraçasse e, como com os cadáveres daquele vale, nervos e carne começassem a nascer. Felizmente não foi como pensei.

"Você vai aprender a lição", ele me disse. Não foi num tom ameaçador como quem castiga o filho por ter roubado a carteira do pai. Suas palavras soaram como "eu vou te ajudar".

Dou graças ao meu Deus que me conhece tão bem e que sabe quão teimosa eu sou. Se fosse fácil demais ele sabia que eu faria de novo.

Como em um quebra-cabeça, meu Senhor foi me dando parte por parte para eu encaixar em mim. Um balde de problemas de um lado, um balde de soluções do outro. À frente estava Jesus, que como na pré-escola tentava me ensinar que o bloco quadrado não se encaixa no buraco triangular.

Na hora me pareceu extremamente cruel começar do zero, mas agora me orgulho desse Deus. Com os degraus tortos eu cairia e me machucaria. Nessa nova fase ele me deu instruções de construção e me dá os tijolos um a um.

"Cuide bem dele", ele me disse quando meu corpo já estava reconstruído. E em mim nasceu uma certeza de que ele jamais me abandonaria, e que me protegeria para sempre. Essa seria a única forma de não me acontecer novamente uma catástrofe.

Eu aprendi que não adianta mostrar-me quente quando bem lá no fundo eu sou morna. Só teria serventia para ser vomitada da boca de Deus. Também aprendi que se sou quente, só importa ao meu Deus. Minhas atitudes, minhas escolhas e minha vida são para ele. Minha posição diante das pessoas, só consequência.

Prosseguindo para o alvo que é Cristo, deixando Sodoma para trás.

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