quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A paz de não ser



Gastamos uma boa parte de nossas vidas tentando descobrir quem somos, e uma parte ainda maior trabalhando em ser alguém. Personalidade e aparência são essenciais, aprendemos. O que ninguém nos disse é que ser ninguém é o primeiro passo para uma vida agradável.

Quando nos esvaziamos de nós e abrimos nossa mente, somos capazes de fazer coisas que nunca fizemos. Uma dessas coisas é deixar de viver para o nosso eu.

A questão não é ser ninguém, mas reconhecer. Nada somos, é um fato. De que vale uma carreta de dinheiro comparada à imensidão do Universo? Somos pontos que nem aparecem no mapa-múndi. Vivemos num planeta entre tantos outros. Recebemos a luz de um Sol que está a quilômetros de distância. Somos insignificantes.

Nossas opiniões mudam, nossos planos se frustam e nossos pensamentos se alteram a cada dia. Não conseguimos sustentar nosso humor por uma semana que seja. Somos seres instáveis.

Nada somos.

Para Jesus não há problema algum em sermos nada. Se assim fosse, a própria humanidade seria um problema. Antes disso, porém, ele nos ama do jeito que somos, e o não ser já não é mais um problema, pois ele já é por nós.

"Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim."
-Gálatas 2.20

Não precisamos mais correr atrás de uma identidade. Não precisamos forçar ser quem não somos. Afinal, tudo o que queremos é uma vida agradável. Sem máscaras, sem encenação ou fingimentos. Simplesmente agradável. Tudo o que queremos é Cristo em nós.

A vida agradável de Cristo na Terra nos serve de exemplo. Ele não agradava a todos, nem vivia uma vida de regalias. Ele foi odiado, acusado e condenado por crimes que não cometeu. Foi traído e negado. Chorou lágrimas de amargura. Mas ainda assim tinha uma vida agradável.

É que ele tinha uma coisa que os outros dois homens crucificados ao seu lado não tinham. Ele tinha paz. Não a falsa paz de fingir que está tudo bem. Mas a paz genuína, que tem a ciência de que tudo vai mal, mas que mesmo assim descansa.

Jesus sabia que estava para morrer, e por mais que sua mente estivesse alvoroçada e sua alma angustiada, ele permanecia em paz. Não que os cravos lhe anestesiaram ou que uma amnésia o fez esquecer a dor da traição. A verdade é que ainda doía, mas valia a pena. Daí a paz.

É dessa paz que o mundo precisa. Não uma sensação de segurança depositada numa conta do banco ou num seguro de carro. Mas a paz de perder tudo mas saber que ainda pode viver.

Não há mal algum em investigar a si mesmo, desde que esse processo não lhe tire a paz. Não há problema em explorar suas habilidades, desde que o orgulho não lhe suba à cabeça. Não há problema em ser alguém, o problema é querer ser maior que Cristo.

"Para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor."
-I Coríntios 1.31

Quem somos? Imitadores de Cristo. Fora disso só encontramos uma lista enumerando nossos erros. Talvez além de Cristo sejamos algo sim, mas nada que nos orgulharíamos de falar. Com Jesus nossos erros se tornam metas, e o que deveria gerar castigo gera paz. Não a paz de errar, mas a de saber que mesmo em meio a desvios Cristo nunca desiste de nós.

O que importa é que somos filhos de Deus. O resto não importa de verdade, mas acalma as inquietações da minha alma, e talvez da sua. Mas ao pensar na vida eterna que me está preparada, meu coração conforta-se. Talvez não precisemos realmente descobrir quem somos, pois Cristo já é em nós, aquietando as ondas que despertam minhas dúvidas e afastando os ventos que me tiram a paz.

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Quem sou eu?
Resgate

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