quinta-feira, 12 de março de 2015

Sem mistura



A nossa vida é como uma construção. A princípio queremos apenas quatro pareces e um teto para nos abrigar, depois queremos transformá-la em um monumento de se admirar - na maioria das vezes é isso o que queremos. De qualquer forma temos um projeto que termina com a bandeira no topo do castelo. Porém nos esquecemos que imprevistos acontecem, de modo que por vezes não conseguimos nem erguer a muralha.

Nosso caráter de madeira pode ser atacado por cupins de mentira, e o nosso sonho de concreto pode ser apodrecido por uma chuva de críticas; algo que não podemos evitar. Mas medidas podem ser tomadas, tais como uma reforma.

"[...] Ninguém tira um pedaço de veste nova para coser em veste velha, por romperá a nova, e o remendo não condiz com a veste velha."
- Lucas 5.36

Quando vamos dar uma geral na nossa vida, temos que ter em mente que o que passou, passou e que foi muito bom enquanto durou. Não podemos ter pena de nós mesmos. Temos que aguentar um martelo quebrando nosso orgulho, nosso ego, nossos sonhos e convicções. Precisamos voltar a ser nada além de um terreno. Não podemos ser quem éramos, precisamos voltar a não ser.

Não se tampa buraco em parede de madeira com gesso, nem se coloca palha nas brechas que o cimento não conseguiu tampar. Não se mistura forte com fraco, nem se mescla velho com novo. O nosso grande problema é pensar que uma vida toda podre pode ser consertada com apenas uma atitude nova.

"Eu sei as tuas obras, que nem és frio nem quente. Tomara que foras frio ou quente! Assim, porque és morno e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca."
- Apocalipse 3.15,16

Pegue um copo de água. Se ela está gelada, você pode facilmente bebê-la; se está quente, você pode usá-la para fazer um chá ou café. Mas quando morna, que serventia há?

O morno nada mais é que uma mistura de quente e frio. O frio já foi quente um dia tão certo quanto um cadáver já viveu. O frio é o que resta quando o fogo se apaga por muito tempo. O frio não é tão bom quanto o quente, mas é melhor que o morno.

Se não estivermos dispostos a começar uma nova vida é melhor continuarmos vivendo como sempre, e não tentar intercalar ideais. Senão correremos um grande risco de adotar a hipocrisia como modo de vida.

Não basta mudar de atitude. É preciso mudar de vida.

Em certos momentos precisamos demolir nossos conceitos e reconstruir a nós mesmo como quem monta uma fortaleza de lego. Precisamos saber de onde viemos e onde queremos chegar. Talvez encontremos coisas assustadoras no nosso passado. Podemos fugir ou encarar. Mas se fugirmos, é de nossa vida que estamos fugindo. O trauma de infância ainda faz parte de nós.

Temos que escavar nosso passado em busca de memórias que nos façam entender o que deu errado. O erro não foi o seu nascimento nem o fato de você existir. O que foi que deu errado? Foi uma família desestruturada? Foi um abuso que você sofreu quando não sabia se defender? Foram dedos apontando características suas que você nunca se orgulhou?

Talvez a tragédia tenha acontecido num passado recente e as feridas abertas te impedem de continuar vivendo. Não conseguiremos viver diferente se os monstros das lembranças continuam a nos assombrar. Precisamos enfrentá-los.

Dentro do ventre de um peixe a escuridão era tanta que não se sabia se estava de olhos abertos ou fechados. A única coisa que lhe dava a certeza de que ainda estava vivo era o mau cheiro que lhe estremecia os ossos. Quem diria que Jonas acabaria assim? Quem sentia medo agora não era o profeta ou o cara importante; era o desobediente que escolheu Társis em vez de Nínive. O monstro de Jonas o atava àquele peixe. O monstro do orgulho o transformara em um monstro orgulhoso. Monstro atado ao próprio pecado.

Chegou uma hora que ele não aguentava mais ficar lá dentro, e fez a única coisa que precisava fazer desde que chegou: ele se lembrou.

Se lembrou do Deus que o chamou, se lembrou da ordem que lhe foi dada, se lembrou que apenas por misericórdia uma intimidade com o Mestre lhe era concedida. Ele reconheceu que não era ninguém e matou seu monstro. Ele se lembrou do inicio de tudo. Na verdade só o início importa.

A base define o resto da obra. Se estivermos firmados em palavras de verdade - que o tempo não corrói e propostas não corrompem -, poderemos então ter uma vida bem sucedida. As guerras continuarão a acontecer, mas nosso forte não cairá.

Para buscarmos a vida eterna precisamos antes conhecer e praticar palavras eternas. Porém, se nossas colunas forem fincadas em mentira e prostituição, estaremos nos preparando para construir nossa própria ruína.

"Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha. E aquele que ouve estas minhas palavras e as não cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia. E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda."
- Mateus 7.24-27

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