quinta-feira, 30 de julho de 2015

A moça



Ele caminhava sozinho, como quem não queria nada. A observava distante para que a moça não percebesse a sua presença. Gostava de ver como sua delicadeza traçava força em seu olhar, e em como sua voz trazia cura. Ele queria sair dali, queria fugir. Ele queria dizer a si mesmo que era loucura, que devia deixar a moça em paz. Mas seu coração fincava seus pés no lugar onde estava, onde pudesse ouvir as composições dela.

Ele não gostava de gostar, e não sabia se era certo. Ele tinha medo de estar apaixonado, e num outro dia ter seu coração estraçalhado. Ele não queria entrar na vida da moça por um instante e deixá-la para sempre. Ele estava confuso.

Por um momento ele quis arrancar seu coração bobo para que pudesse ouvir seus pensamentos com mais calma. Ainda assim seus em seus pensamentos só havia espaço para a menina. Ele tentava afastar esses pensamentos doces, essas fantasias sobre um futuro de conto de fada, mas não conseguia.

Ele não esperava receber ajuda, e acreditava que ninguém saberia lhe ajudar. Afinal, do coração cuide seu dono. O problema é que ele conseguia mais se conter. Chegou ao ponto de se odiar por não tomar uma decisão. Quis parar de existir só para não delirar novamente ao olhar nos olhos profundos da moça.

Mais tarde, sozinho e em silêncio, trancou-se no quarto e chorou baixinho por dentro, para que nem ele mesmo percebesse. Pediu ajuda a um velho conhecido que tratava do coração. Contou-lhe sua dor e sua euforia. Contou-lhe sobre a menina. Sobre seus cabelos que ficavam lindos ao vento, sobre suas palavras que o faziam perder o fôlego, sobre a determinação que a fazia ser única. Contou-lhe sobre sua paixão escondida, sobre o não gostar de gostar e sobre as tentativas de espionar a alma da moça a fim de encontrar um brecha para entrar.

Contou-lhe até sobre se achar um idiota que não consegue se decidir!

Esse conhecido, então, olhou para o rapaz com compaixão. Ele pediu o coração dele. O rapaz tirou-o de dentro de si e entregou ao que estava à sua frente. O conhecido, que insistia que o chamasse de amigo, guardou o coração, e pediu ao rapaz que olhasse para ele. "Não desvie o olhar nunca mais".

O rapaz sentiu-se melhor. Ele não pensava tanto na moça, nem transbordava em emoção. Ele olhou para o seu amigo, e de alguma forma soube que daquele momento em diante tudo estaria bem. Ele não sentia mais nada além de gratidão ao amigo. Não queria gostar nem odiava estar apaixonado. Ele estava bem.

O amigo levou o coração do rapaz consigo. E disse que havia uma moça - a mais bela, a mais forte e a de melhor caráter - esperando para receber esse valioso tesouro. Ele disse que havia o tempo certo. Ele disse que seria tudo perfeito, e que cuidaria de tudo se o rapaz pedisse. "Confie em mim", ele disse antes de desejar boa noite.

Dias depois, o rapaz procurou a menina. Queria certificar-se de que tudo aquilo havia sido real. Chamou-a para conversar, olhou em seus olhos profundos, sua respiração continuou estável. Não via mais na moça o motivo de sua ruína, de sua irracionalidade ou de sua paixão. Via nela uma moça, uma provável futura amiga. Viu quem ela era, e não quem ele desejava que ela fosse.

Decidiu de uma vez por todas que esperaria o tempo necessário. Jurou a si mesmo controlar-se para sempre. Esperava dia após dia a garota perfeita, a prometida adornada de força, a moça capaz de lhe fazer feliz. Esperou, esperou e esperou....

Cansou de esperar - afinal, quem não cansa. Não uma ou duas, mas várias vezes. E toda vez que o desânimo chegava, uma conversa com seu amigo fazia a esperança voltar. Passou-se tempo. Bastante tempo, para falar a verdade. Muito mais tempo do que o rapaz imaginou que pudesse suportar.

E depois desse tempo, o amigo chegou bem perto do rapaz e lhe entregou o coração. Olhou em volta, apontou discretamente. "É ela. Vai lá". E ele foi.

Diz que não se arrependeu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário