quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O barro e o poeta



As árvores se curvavam e os animais se aproximavam para ver melhor. As águas das cachoeiras corriam anunciando a chegada do poeta. Ele observou toda a natureza e sorriu satisfeito. Todas as vezes com sua caneta em mãos, chamava a atenção até dos mais ocupados formigueiros. E lá estava ele, visitando aquele lugar que lhe agradava tanto. Ele não segurava sua caneta desta vez, o que deixou o vento curioso, correndo de um lado para o outro.

Ele sentou com as pernas cruzadas num lugar sem plantas. Passou a mão sobre a terra com textura enlameada para criar uma superfície lisa. Usou suas mão para começar a escrever. Tinha tanta cautela quanto quem escreve no papiro um escrito japonês. Buscava inspiração em cada palavra. Usava diligência em cada movimento.

De todas as vezes que ele esteve presente no jardim a fim de criar uma obra, esta era a primeira que ele fazia parte de sua criação. Mesmo com o braço sujo de barro não parava de registrar cada ideia que aparecia em sua cabeça. Nunca se viu tamanha inspiração vinda do poeta!

Letra por letra.
Vinham as palavras.
Corriam por todo o solo.
Davam as mãos a formar frases.
E mais palavras.
Cada uma escrita com o maior cuidado.
Formavam mais frases.
Palavras e mais palavras.
Ideias e mais inspirações.
Zelo.
Pele.
Letras.
Braços.
Abraços.
Mente.
Palavras.
Amor.
Fígado.
Cabeça e pés.
Dentro e fora.
Verso, estrofe.
Poesia.

O nunca visto foi visto ali. A originalidade em matéria. Não, não estava pronto. Faltava algo. De que valem as palavras belas de interior oco? De que valem versos de inspiração morta? De que valem dois pulmões se não conhecem respirar? É isso! Ar!

O poeta, então, tomou sua poesia em mãos. Encheu seus pulmões e soprou. Não era qualquer sopro, como daqueles que soltam CO2. Era diferente. Ele gerava vida onde conseguisse se instalar. E lá estava a poesia. Poesia viva nas mãos de um Deus poeta¹.

Empoeirou suas mãos e seus pés
Foi flagrante o amor que sentiu por mim
Soprou em mim seu sopro cortante, diamante 
Que quer ver alguém viver²

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Notas
¹ Frase de Laureane Antunes, do blog Alma Florida
² Trecho da música Há um Deus de Felipe Valente

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