quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Quando a realidade bate à porta



É muito agradável viver no nosso mundinho. Se trancar dentro de quatro paredes metafísicas às vezes parece a melhor opção. No início é muito normal viver por lá. Não conhecemos muito além daquilo. Temos nosso pequeno círculo de amizades, nossos interesses, nosso tempo e nosso espaço. Temos a atenção de nossa família, de nossos amigos, vamos bem na escola e às vezes nossa vida se assemelha a um conto de fadas. Está tudo indo tão bem!

Mas você, meu caro leitor, bem sabe que essas coisas não duram. Chega uma hora que a realidade vem cobrar o aluguel e não temos nada para oferecer. Somos banidos de nossas caixinhas confortáveis, de nosso cantinho seguro. Agora caminhamos errantes em busca de sobrevivência. Nossos encontros familiares se tornaram sem graça, não conversamos com nossos amigos como conversávamos antes, entramos em longos processos de crises existenciais e nossa cabeça parece que vai explodir com tantas dúvidas. Questionamos coisas que não precisariam ser questionadas. Ou será que passamos muito tempo com respostas rasas sem nos aprofundarmos na questão?

Tudo parece muito perigoso. Assim que saímos da caixa, tudo nos machuca. Pessoas nos ofendem, sentimentos nos traem, erros nos constrangem. Passamos a acreditar que tudo nessa vida tem um lado ruim. Nos afastamos das pessoas, pois elas não sentem a nossa dor com a mesma intensidade. Questionamos nossas certezas mais enraizadas, porém não concluímos se vale a pena ou não continuar seguindo nossas crenças.

Temos medo. Tanto medo que fingimos ser alguém diferente de quem somos, algo que não aconteceria na nossa caixinha. Vestimos roupas que não gostamos, ajeitamos o nosso cabelo de uma forma que nos irrita, ouvimos as músicas que todos ouvem, aguentamos tratamentos que nos reviram o estômago, fazemos coisas que fazem nossa consciência gritar! Nos tornamos produtos de uma sociedade falida, enfileirados numa prateleira.

Saímos de nossas caixas cheios de ideais, mas logo toda superficialidade que nos rodeia suga nossas profundezas. Em pouco tempo estamos totalmente mudados. Não somos nós mesmo. Eles também não são. Mas que importa? Todos estão se divertindo, não?

As ruas de concreto parecem tão mórbidas. Pessoas feitas de metal parecem tão frias. Já não há mais esperança para nós, caro leitor. Na verdade era nisso que eu acreditava. Acreditava nisso até que vi uma pequena flor brotar do pavimento. Não era fácil viver ali, mas ela estava vivendo, e parecia viver bem. Conheci pessoas que exalavam calmaria para um mundo tão caótico. Pessoas que davam o seu melhor para não só sobreviver, mas viver, e viver abundantemente! Seguindo com o olhar os passos destas, descobri as pequenezas mais belas que essa vida pode oferecer.

Ah, e ainda havia aquelas outras. Aquelas que carregavam uma paz inexplicável. Não, não foi a paz que me chamou a atenção, mas o fato de que aquela paz me era muito familiar. Lembrei-me de tê-la encontrado numa dessas ocasiões de puro caos. E ela estava ali, no semblante agradável de certo alguém, não espalhada entre os seus pertences, mas dentro de si. Esta tal pessoa não era a luz, mas falava sobre a própria. E não com sua boca, mas com cada um de seus gestos. E seus testemunhos sobre a Luz me fizeram perceber que, sob a perspectiva certa, a vida é bela sim! E a esta pessoa sou eternamente grata.

A realidade é, sim, muito dura. Cabe a nós escolher entre sentir arduamente nossas feridas e arrancar das antigas cicatrizes esperança. A escolha está em nossas mãos, e insistimos em agir como se fôssemos predestinados ao sofrimento, mas deixa eu te contar um segredo: Não somos! Não temos culpa de onde nascemos, e isso não quer dizer nada sobre nós. Quando a realidade bate à porta, cabe a nós plantar flores de esperança na cidade de concreto.

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