sábado, 30 de abril de 2016

Dos holofotes acesos ao anfiteatro vazio



Na minha adolescência, cercado na roda de amigos regrado de discursos ostensivos, era uma disputa (aliás, nós vivíamos em uma constante competição, tudo que se imaginava era pretexto para transformarmos em um duelo), eu para não sair por baixo comecei a exibir minha estória fantasia. Consegui de fato impressioná-los, ficaram atônitos e faziam perguntas, e eu enfrentava todas com ousadia e segurança nas palavras e a face de madeira. Chegando em casa, o vazio me domava, imaginando quão vergonhoso seria se eles descobrissem a farsa. Até hoje sou conduzido a esse episódio que há tanto tempo se passou, até hoje ninguém soube se era verídico ou não o meu relato, mas ainda me sinto constrangido, por saber que naquele momento eu fingi ser alguém que eu não era.

Vale observar que a vergonha notabiliza-se quando existem pessoas para contemplar, mas o tal opróbrio nunca acontece quando não há testemunhas presentes, isso porque não ligamos com os nossos deslizes contanto que os holofotes externos estejam apagados.

Existe um distanciamento do relacionamento interpessoal para com o intrapessoal (a comunicação consigo mesmo), existindo uma colisão de sentimentos e vontades. A cobrança ausenta-se quando envolvem valores intrínsecos, não há devida fiscalização, por exemplo, se estamos sendo falsos em algumas afirmações ou posturas, se estamos mentindo para nos beneficiar, algo que só nós podemos dizer a nós mesmo o grau de sinceridade ou se adotamos o jeito hipócrita de viver 

A hipocrisia no vocábulo grego que denota os atores gregos que usavam máscaras para representar algum personagem numa peça teatral. O termo hipócrita designa alguém que oculta a realidade por atrás de uma máscara de aparência. 

A veracidade encontra-se por trás das máscaras, somente na solidão conseguiremos prestar conta com a nossa consciência moral autêntica, rígida e autônoma, dessa forma conquistaremos o desprendimento do papel social.

Tem pessoas que se recusam acender a luz interna para visualizar suas imperfeições mais sombrias. A pessoa passa acostumar-se com a ferida, preferindo não tratar pela a possibilidade de dor e incômodo de mudar algo socialmente conivente. Já outras por não desenvolverem o olhar interno, uma espécie de miopia íntima evolui, impossibilitando de enxergar internamente a si mesmo, mas potencializa o olhar ao outro. Com isso o erro (relativamente) do outro, surge como gritos aos nossos ouvidos “moralistas”, que por fim acabam sufocando nossos “pequenos equívocos” em sussurros ocultados pela nossa atuação social. 

Quando alinharmos nossas limitações ocultas com a nossa vida social, seremos capaz de julgar os outros com justiça (com um mínimo de coerência), em vez de deixar levar pelos gritos da multidão, pelos estereótipos de propaganda, pelo interesse próprio disfarçado em belos pretextos morais. 

Nossos discursos precisam convencer primeiramente a nós, para depois tocar o mundo.

Queremos arrumar, consertar, mudar... Tornamos o “carpinteiro do universo” – Sejamos antes carpinteiros das nossas vidas.

Mas ainda hoje surgem os mesmos motivos que levou eu na minha adolescência de querer impressionar pessoas em minha volta, olho para dentro de mim e sinto que é melhor estar em concordância comigo mesmo, ao contrário de mendigar elogios, aplausos por fora e rejeição por dentro... Abra-se as cortinas e começa o espetáculo, na qual você é o ator e plateia da sua vida. Ovacione e vaie sempre que preciso!


Bruno Assis

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