quarta-feira, 6 de abril de 2016

Entrega



Já fazia um tempo que eu não entregava nada para Deus. Minha alma desejava agradá-lo. Lembrei-me, então, da última vez que eu havia entregado algo para Ele, e pensei que talvez fosse uma boa hora para outra entrega.

- O que o Senhor quer? - perguntei.

Nenhuma resposta.

Perguntei novamente:

- O que o Senhor quer?

Então Ele respondeu. Imaginei eu, em minha inocência, que Ele me pediria uma coisa óbvia. Talvez minhas madrugadas, umas semanas de jejum, me abster um tempo das redes sociais, qualquer coisa. Mas a resposta dele não foi nada como isso. Quando perguntei o que Ele queria de mim, em seu silêncio, Ele me respondeu:

- O que você tem para me entregar?

Aquela resposta, sem sombra de dúvida, me surpreendeu. Oras, se eu havia perguntado era porque eu não fazia ideia do que oferecer!

- Mas eu não tenho nada, Senhor!

- Tem uma coisa... - Ele disse - E você sabe o que é - continuou.

Ao dizer isso, apenas uma coisa veio em minha mente. Sim, meu pequeno tesouro. A flor que eu havia cultivado. Ovelha primogênita do meu rebanho. Sem defeito, sem manchas. Preciosidade na qual eu depositava muito apreço.

Relutei. "Qualquer coisa menos isso", pensei.

Mas se não fosse isso, o que seria? O que mais teria eu para oferecer para Deus além de algo que já fazia parte de mim? O que havia em mim, além de clichês, se não isso?

Finalmente aceitei.

Cheguei diante dele (com a cara e a coragem mesmo), carregando cuidadosamente meu tesouro com as duas mãos. Esbocei um sorriso amarelo no rosto e estendi meu dois braços para o alto.

- Pegue antes que eu mude de ideia. - disse sem sequer encará-lo.

Ele riu. Não como quem queria me ver sofrer. Mas como alguém que estava feliz com o que via: Sua menina teimosa estava lá, contradizendo seu querer, tentando inutilmente esboçar alegria em seu semblante cansado. Lá estava eu, com minha pequeneza de valor imensurável em mãos, diante de um Deus de planos inescrutáveis e de Graça infalível. Lá estava eu, contra minha vontade, contra a minha razão; entregando para Deus algo que eu cultivei, algo que finalmente havia dado certo! Eu não estava tão satisfeita, mas eu soube na hora que era a melhor coisa, pois senti a paz do Espírito Santo a me envolver.



- Só te peço uma coisa.

- E o que é?

- Que você me ajude a não tomar isso de Suas mãos.

- Pode deixar - esboçou satisfação em seu olhar.



Se foi difícil deixar meu pequeno tesouro com Ele? Você nem tem ideia! Se já desejei tomá-lo de volta? Sim, com certeza. E confesso que, ainda hoje, essa ideia às vezes passa pela minha cabeça. Mas aí eu me lembro: O melhor lugar para o meu tesouro estar é nas mãos do Senhor.

Talvez Ele nem fizesse tanta questão do meu tesouro em si. Talvez ele não faça nada com ele. Talvez nada influenciasse em minha vidá tê-lo em minha estante. Mas a questão não está no tesouro, mas sim no ato de entregar. Entregar essa pequeneza significou tirar um pedaço de mim e oferecer de presente. Isso significa que mais importa agradar a Deus do que a mim mesma. Significa que eu prefiro os métodos de Deus aos meus planos. Significa que eu o amo, pois eu neguei a mim mesma.

Qualquer um que conhecesse essa situação em detalhes diria: "Ah, deixa disso! É bobeira... Pra que Deus te pediria isso?". Mas é justamente por não haver porquê que torna toda essa entrega mais intensa. Se fosse algo que eu visse que me ajudaria em meu futuro, seja profissional, ministerial ou em qualquer outra área, eu entregaria ainda relutante, mas pensando que seria o melhor para mim. Sem saber o motivo, entregando sem quê nem porquê, eu entrego pelo simples ato de renunciar. Sem segundas intenções, sem entrelinhas.

Eu não sou lá uma de Suas melhores filhas, mas é com um sorriso no rosto que posso dizer: Eu amo o Senhor. Nem que seja com só um pedacinho. Mesmo com todas as minhas falhas. Jamais chegarei aos pés da forma como Ele me ama, mas talvez esse já seja o começo.






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