sábado, 17 de setembro de 2016

Isso não é um texto motivacional



Não era a primeira nem a segunda vez que aqueles pensamentos apareciam. A princípio era apenas um vento que provocava alvoroço, e depois se tornou uma nuvem cinzenta pairando sobre sua cabeça. Um, dois, três cortes. Outrora o prazer estava em ver uma gotinha vermelha escorrer pelas trilhas traçadas pela lâmina, agora deseja acertar em cheio a posição do corte que não teria mais volta.

Já tinha ouvido sobre suicídio, mas não tinha medo da morte. Acreditava já ter desfalecido, com correntes em sua alma a prendê-la a um corpo aparentemente vivo. Não era sobre morrer, era sobre libertar-se. Sobre trincar a casca e parar de esconder os vermes que consumiam a alma e a mente. O corpo só após a caminhada fúnebre.

A monotonia tomou conta da rotina. Acorda cedo, vem aqui, pare lá, obedeça, e principalmente: Seja feliz! Já havia se cansado de esboçar um sorriso amarelo no rosto só para não dever explicações sobre seu humor. Ninguém jamais entenderia a sensação de não sentir mais dor, nem medo, nem alegria. Ninguém aceitaria uma caixa de esperanças vazia, um álbum de memórias queimado, e um coração que nem está mais quebrado, pois já sumiu.

Diferentemente da opinião comum, não era covarde. Na verdade tinha até muita coragem de se levantar da cama todas as manhãs, ler o jornal e não desistir de respirar. Vez ou outra conversava com alguém que talvez pudesse ajudar, mas na maioria das vezes era em vão. Ouvia os conselhos com atenção, mas não agia de acordo na hora de praticar. Então aquela vozinha aparece de novo: "Inútil! Não consegue nem fazer uma coisa fácil como essa!".

Oh, céus! Quem compreenderia? Estaria só nesse mundo? O silêncio sempre lhe pareceu a melhor opção, afinal, não parecia boa ideia incomodar pessoas que vivem tão bem para falar de problemas tão miseráveis.

Num dia desses qualquer, saiu de casa só com três e oitenta para chegar à estação de metrô. Olhou em volta, não havia ninguém para impedir. Deu uns passos à frente, encheu os pulmões pela última vez. A casca que prendia sua alma a uma suposta vida foi despedaçada, esmiuçada, tornada pó.

O maquinista não se importou. Os passageiros não se assustaram. A locomotiva não parou. E só retirariam o corpo ao final do dia. Era normal. Também era normal os constantes comentários dizendo "bem feito", que era frescura, que só queria chamar atenção.

Quem sabe se tivesse sabido que tudo bem não estar bem, o final não seria diferente. Quem sabe se ao invés de largar mão tratassem a pessoa como gente. Quem sabe se no lugar de críticas tivesse alguém para escutar, estender a mão. Mas não foi isso que aconteceu.

Não é isso que acontece. Será que um dia acontecerá? Ou será que ajudaremos, dia após dia, a casca viva se trincar?

Nenhum comentário:

Postar um comentário