sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Miopia



- Eu vou ficar nessa cidade, não vou voltar pro sertão!

- Eu não me vejo na cidade...

- Você prefere o sertão? Calmo, pacato, entediante?

- Não. Também não me vejo lá.

- Oras, onde você se vê então?

- Em lugar nenhum.

- Isso é impossível. Deve haver algum lugar.

- Não dá. Não consigo. Sou míope.

- Ah, sim. Dá pra saber que você é míope pelos óculos. Mas isso é só forma de expressão.

- Mas não é só do olho. Da alma também.

- Alma não tem visão!

- Claro que tem. A gente é que não usa.

- Se é assim, o que sua alma vê?

- No momento, não muita coisa. Só uns borrões, uma figura aqui, outra ali. É difícil distinguir às vezes, porque nem tudo é o que parece. Além disso, é bem complicado, porque minha alma não vê pessoas, árvores ou um céu azul num dia ensolarado.

- E o que ela vê?

- Ela vê ideias, histórias, sentimentos. Ela vê o que não dá pra pintar com giz de cera. Ela vê laços de amizade e amores, sorrisos escondidos, tristezas ocultas e profundos temores. Mas ultimamente uma coisa tem se misturado na outra, se fundindo como numa aquarela nas mãos de que não sabe usar.

- Antes você via melhor?

- Eu não diria melhor. É que antes eu estranhava. É que quando nascemos tudo é estranho e desconhecido, e procuramos algo familiar em toda parte, e quando não encontramos, nos acostumamos a essa realidade sem sentido. Eu acho que já me acostumei.

- Por isso você não se vê em lugar nenhum?

- Sim.

- Não tem nenhum lugar? Nenhunzinho?

- Tem um lugar... Ele é muito especial.

- Ah, é? Por quê?

- É que alguém especial mora lá. Tenho saudades de seus abraços.

- Hmmm... Sabia que tinha alguma coisa nisso aí. E posso saber onde essa pessoa mora?

- No Céu!

- Uau! Mas que lugar excêntrico!

- Sim. Ele também é um pouquinho.

- Então quer dizer que você só se vê no Céu?

- Uhum.

- E por que só lá e não aqui?

- É que foi lá que eu deixei meus óculos.

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