terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Miserável que sou


Caminhando sobre pétalas de rosas que faziam do chão um tapete vermelho, cada passo tilintava ao som dos guizos presos aos tornozelos. Uma fina camada de açúcar por pele, e uma dança de encantar os olhos.

Passado o tempo e trilhado o caminho, chegou-se a chuva que não se pode evitar. A principio eram minúsculas gotículas, perfeitamente esquiváveis, depois gotas maiores que caíam bruscamente, e só então uma sinfonia de água abundante se precipitando de nuvens alvas que criava um manto onde não se podia ver através da água.

Como ditam as leis, todo açúcar que lhe concedia graciosidade diluiu-se à água e correu apressada aos bueiros. Sem a parte doce, ficou exposta toda a sua essência - e não era de caramelo. No exato momento da chocante revelação, a água cessou, não levando o pó sob o açúcar também ao ralo.

Se negou a olhar nos olhos da vida e dizer a verdade sobre si. Nada era, além de um punhado de barro preenchido com um sopro divino. Se este sopro lhe fosse arrebatado, que restaria? Uma luminária sem fiação, uma caixa de sapatos vazia.

O que seria além de um emaranhado de alegria, tristeza, pesar? Histórias, vitórias, joelhos ralados? Se não houvesse a quem atribuir glória e adoração, nada mais seria que um ego inchado.

Que proveito há num punhado de pó? Quem colocaria tal numa xícara de café? Que doçura, agrado, afeto, poesia há nas escórias de uma máscara caída? Quem quereria esse punhado de pó, senão quem ordenou que a chuva viesse e quem já sabia o que restaria após o temporal?

Ele se achegou com a ternura de um velho amigo de infância. Não se importou em sujar as mãos para reconstruir a alma esfarelada após o confronto com a realidade. Não era possível compreender. Aquele não era o Criador da eternidade? Aquele não era o que se manifestava no Santo dos Santos? Como poderia, com todo poder e santidade, tocar em uma portadora da terrível raiz pecaminosa?

Como um Deus bom poderia se aproximar de uma alma que tem prazer em fazer o mal? Como pôde um ser divino despir-se de glória para derramar sangue por imponentes mortais? Como é possível que gaste horas, sendo Dono do tempo, para ouvir canções melancólicas entoadas de madrugada clamando por socorro?

Como pode?

Isso é algo que eu jamais serei capaz de saber. Nem mesmo na ascensão sobre o tapete vermelho, nem no auge da caminhada quando todo o açúcar de minha pele foi por água abaixo. Ao me deparar com uma porção de barro diante do espelho, nunca consegui compreender o que Ele viu em mim para achar que eu merecia um sopro divino para que minha existência não se resumisse a mero pó. Na verdade, talvez até melhor do que eu, Ele saiba que eu não mereço. Até mesmo o ar que corre pelos meus pulmões e as informações que correm loucas pelo meu cérebro são pela graça.

Diante de tudo disso, só posso concluir isto: Gracioso como é, sem quê nem porquê, decidiu amar a alma perdida e miserável que sou.

E quão miserável eu sou!

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